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quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Carne e Sessão Mediúnica



Os amigos espirituais nos falam que é bom evitar carne vermelha nos dias de sessão mediúnica.
Dizem eles que: a carne dos mamíferos possui energia vital de densidade muito semelhante a nossa. O que leva a uma aderência maior desta energia ("fluido vital”) ao nosso campo de energia vital. Vamos emitir uma hipótese como exercício de raciocínio, e não como “verdade doutrinaria”.

(1)- Lembramos que o mamífero foi morto precocemente, portanto cheio de vida, ou seja, de energia vital em seus tecidos para uma encarnação de muitos anos ainda. Sua carne, portanto, encontrava-se plena de energia vital ("fluido vital”). Parte deste fluido vital permanece nos matadouros e costuma ser vampirizada pelos espíritos enfermos e desequilibrados que tenham o corpo astral (perispírito) muito denso. Outra parte desta energia vital não sendo vampirizada, e não retornando a massa de energia do universo, como ocorre nas mortes naturais fica impregnando a carne.

(2)- AO INGERIRMOS A CARNE (nos referimos em especial aos mamíferos) há uma decomposição ou fragmentação de seus sub-componentes (aminoácidos etc) os quais serão absorvidos pelo nosso sangue. A energia vital por sua vez é absorvida também se encaminhando para o nosso corpo vital (denominação de Kardec) ou corpo etéreo que é o campo de energia fixadora do perispírito ao corpo biológico. Este corpo vital (corpo etéreo) ao absorver esta energia vital do mamífero torna-se mais denso mais "oleoso” dificultando o trânsito das energias do corpo biológico para o corpo espiritual (perispírito).

(3)- Esta dificuldade acarretaria:
3.1- Maior dificuldade do desdobramento mediúnico.
3.2- Maior dificuldade na captação de energias espirituais
3.3- Maior dificuldade na doação de energias pelo passe.
3.4- Maior dificuldade em receber o passe.
3.5- Com o passar dos anos crescente dificuldade nos sentidos mencionados.

Conclusão 1: os mentores espirituais pedem para não comer carne vermelha nos dias de sessão por uma razão cientifica (ciência deles) e não por qualquer motivo piegas.

Conclusão 2: quando disse Jesus: "atirai vossas redes ao mar.” poderíamos entender, também, ser melhor nos alimentarmos de peixes. Brincando, diríamos: é claro o peixinho é tão limitado (burrinho), nem pineal desenvolvida tem, é quase como um sincício espiritual ou alma-grupo. Não existe uma individualidade bem constituída em peixes como existe em mamíferos. Portanto, o fluido vital dos peixes não tem a mesma característica dos animais superiores. Seria quase como nos vegetais, onde um conjunto de mudas de grama são centenas de princípios espirituais que se fundem em um gramado sem individualidade. (alma-grupo é uma denominação esotérica, mas o raciocínio é o mesmo nosso de espíritas). A individualidade, conforme Jorge Andréa e outros autores encarnados e desencarnados, só se atinge em nível dos lacertídeos e os peixes, pela pineal quase inexistente, ainda não tem esta organização. 

Dr. Ricardo Di Bernardi - Florianópolis SC

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Alzheimer: Uma Moléstia Espiritual





É Possível Evitar



Por Dr. Américo Marques Canhoto


Américo Marques Canhoto, médico especialista, casado, pai de quatro filhos. Nasceu em Castelo de Mação, Santarém, Portugal. Médico da família desde 1978. Atualmente, atende em São Bernardo do Campo e São José do Rio Preto - Estado de São Paulo - BR. 
Conheceu o Espiritismo em 1988. Recebia pacientes que se diziam indicados por um médico: Dr.Eduardo Monteiro. - Procurando por este colega de profissão, descobriu que esse médico era um espírito, que lhe informou: Alzheimer acima de tudo é uma moléstia que reflete o isolamento do espírito.

Queremos dividir com os leitores um pouco de algumas das observações pessoais a respeito dessa moléstia, fundamentadas em casos de consultório e na vida familiar - dois casos na família. 
Achamos importante também analisar o problema dos 'cuidadores' do doente. 

Além de trazer à discussão o problema da precocidade com que as coisas acontecem no momento atual. Se tudo está mais precoce, o que impede de doenças com possibilidade de surgirem lá pelos 65 anos de idade apareçam lá pela casa dos 50 ou até antes?

Alerta
- É incalculável o número de pessoas de todas as idades (até crianças) que já apresentam alterações de memória recente e de déficit de atenção (primeira fase da doença de Alzheimer). Lógico que os motivos são o estilo de vida atual, estresse crônico, distúrbios do sono, medicamentos, estimulantes como a cafeína e outros etc. Mas, quem garante que nosso estilo de vida vai mudar? 
Então, quanto tempo o organismo suportará antes de começar a degenerar?

É possível que em breve tenhamos jovens com Alzheimer?!?

Alguns traços de personalidade das pessoas portadoras de Alzheimer 
a) Costumam ser muito focadas em si mesmas. 
b) Vivem em função das suas necessidades e das pessoas com as quais criam um processo de co-dependência e até de simbiose. 
c) Seus objetivos de vida são limitados (em se tratando de evolução). 
d) São de poucos amigos. 
e) Gostam de viver isoladas. 
f) Não ousam mudar. 
g) Conservadoras até o limite. 
h) Sua dieta é sempre a mesma. 
i) Criam para si uma rotina de 'ratinho de laboratório'. 
j) São muito metódicas. 
k) Costumam apresentar pensamentos circulares e idéias repetitivas bem antes da doença se caracterizar. 
l) Cultivam manias e desenvolvem TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo) com freqüência. 
m) Teimosas, desconfiadas, não gostam de pensar. 
n) Leitura os enfastia. 
o) Não são chegadas em ajudar o próximo. 
p) Avessas á prática de atividades físicas. 
q) Facilmente entram em depressão. 
r) Agressivas contidas. 
s) Lidam mal com as frustrações que sempre tentam camuflar. 
t) Não se engajam. 
u) Apresentam distúrbios da sexualidade como impotência precoce e frigidez. 
v) Bloqueadas na afetividade e na sexualidade. Algumas têm dificuldades em manifestar carinho, para elas um abraço, um beijo, um afago requer um esforço sobre-humano.

Gatilhos que costumam desencadear o processo-
Na atualidade, a parcela da população que corre mais risco são os que se aposentam - especialmente os que se aposentam cedo e não criam objetivos de vida de troca interativa em seqüência. Isolam-se. 

- Adoram TV porque não os obriga a raciocinar, pois não gostam de pensar para não precisar fazer escolhas ou mudanças. 

- Avarentos de afeto e carentes de trocas afetivas quando não podem vampirizar os parentes, deprimem-se escancarando as portas para a degeneração fisiológica e principalmente para os processos obsessivos. Nessa situação degeneram com incrível rapidez, de uma hora para outra.

Alzheimer e mediunidade- No decorrer do processo os laços fluídicos ficam tão flexíveis que eles falam com pessoas que não enxergamos nem sentimos. 
Chegam a transmitir o que dizem os desencarnados ou são usados de forma direta para comunicações. 

Esta condição fluídica permite que acessem com facilidade ao filme das vidas passadas (bem mais a última) - muitas vezes nesses momentos, nos nomeiam e nos tratam como se fossemos outras pessoas que viveram com eles na última existência e nos relatam o que 'fizemos' juntos, caso tenhamos vivido próximos na última existência. 
Vale aqui uma ressalva, esse fato ocorre em muitos doentes terminais e em algumas pessoas durante processos febris.


Obsessão
É bem comum que a doença insidiosamente se instale através de um processo arquitetado por obsessores, pois os que costumam apresentar essa doença não são muito adeptos da ajuda ao próximo e do amor incondicional; daí ficam vulneráveis às vinganças e retaliações. 
É raro que bons tarefeiros a serviço do Cristo transformem-se em Alzheimer. 
Mas, quem é ou quais são os alvos do processo obsessivo? 
O doente ou a família? 

Alzheimer - o umbral para os ainda encarnados
O medo de dormir reflete, dentre outras coisas, as companhias espirituais nada agradáveis. 
Os 'cuidadores' desses pacientes tem mil histórias a contar e muitos depoimentos a fazer.. Esse assunto merece muitos comentários.

O que é possível aprender com o cuidador?
Paciência, tolerância, aceitação, dedicação incondicional ao próximo, desprendimento, humildade, inteligência, capacidade de decidir por si e pelo outro. Amor. 

O problema da obsessão 
- Quem obsidia quem? 
Cuidador e doente são antigos obsessores um do outro - não é preciso recuar muito no tempo, pois mesmo nesta existência, com um pouco de honestidade dá para analisar o processo em andamento; na dúvida basta analisar as relações familiares, como as coisas ocorreram. 

Não foi possível? - não importa; basta que hoje, no decorrer do processo da doença, avaliemos o que nos diz o doente nas suas 'crises de mediunidade': 
- você fez isso ou aquilo, agora vai ver! - preste muita atenção em tudo que o doente diz, pois aí, pode estar a chave para entendermos a relação entre o passado e o presente.


A dieta influencia
Os portadores da doença costumam ter hábitos de alimentação sem muita variação centrada em carboidratos e alimentos industrializados. 
Descuidam-se no uso de frutas, verduras e legumes frescos, além de alimentos ricos em ômega 3 e ômega 6

Devem consumir mais peixe e gorduras de origem vegetal (castanha do Pará, nozes, coco, azeite de oliva extra virgem, óleo de semente de gergelim). 

Estudos recentes mostram que até os processos depressivos podem ser atenuados ou evitados pela mudança de dieta.

Doença silenciosa?
- Nem tanto, pois avisos é que não faltam, desde a infância analisando e estudando as características da criança, é possível diagnosticar boa parte dos problemas que se apresentarão para serem resolvidos durante a atual existência.

Remédios resolvem?
Ajudar até que ajudam; mas resolver é impossível, ilógico e cruel se, possível fosse - pois, nem todos tem acesso a todos os recursos ao mesmo tempo.

Remédios usados sem a contrapartida da reforma no pensar, sentir e agir podem causar terríveis problemas de atraso evolutivo individual e coletivo; pois apenas abrandam os efeitos sem mexer nas causas. Tapam o sol com a peneira.


Remédios previnem?
Claro que não! - apenas adiam o inexorável. Quanto a isso, até os cientistas mais agnósticos concordam. Um dos mais eficazes remédios já inventados foram os grupos de apoio à terceira idade.

A convivência saudável e as atividades que possam ser feitas em grupo geram um fluxo de energia curativa. A doença de Alzheimer acima de tudo é uma moléstia que reflete o isolamento do espírito que se torna solitário por opção. O interesse pelos amigos é um bom remédio. 

Qual a vacina?
É estudar as características de personalidade, caráter e comportamento dos que a vivenciam, para que não as repitamos. A melhor e mais eficiente delas é o estudo, o desenvolvimento da inteligência, da criatividade e a prática da caridade.
Quer evitar tornar-se um Alzheimer? 
Torne sua vida produtiva, pratique sem cessar o perdão e a Caridade com muito esforço e inteligência. 
Muito mais há para ser analisado e discutido sobre este problema evolutivo que promete nos visitar cada dia mais precocemente... 



Esperamos que esta pequena lição que o Dr.Américo nos proporcionou em sua palestra nos sirva para podermos ajudar pessoas com este mal.
 

‎"O desapego é necessário para o crescimento espiritual."
Amma.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

O Homem de Abadiania

Por.: Pablo Nogueira (texto)
E André Schneider (fotos)

Quem é João de Deus, o Médium Brasileiro que atrai legiões de fiéis de todo o Mundo com suas Supostas Curas Espirituais.

Incorporado por uma entidade, o médium João de Deus prepara-se para encerrar os trabalhos de mais um dia.

É um belo fim de tarde de sexta-feira e estou fazendo hora em um jardim. Ao meu redor, espalham-se cerca de 70 pessoas de todas as idades, e estamos aguardando que o homem que dirige esse lugar apareça para nos dizer adeus.

Sem ter muito o que fazer, começo a escutar a conversa de quem está por perto. Identifico vários franco-canadenses, um casal alemão com duas filhinhas, uma menina com aspecto de indiana falando francês com sotaque (de onde será?), duas senhoras norte-americanas, outras duas da Austrália e um grande grupo proferindo algo totalmente incompreensível, que depois descubro ser húngaro. Quase todos vestem branco, e o papo segue animado.

O clima é aquela mistura de alegria com nostalgia antecipada, característico do fim de qualquer viagem bem-sucedida. Amanhã todos estarão voando de volta a seus países, após uma estadia de pelo menos duas semanas na pequena Abadiânia, no interior de Goiás. 

Uma porta se abre. Dela sai um homem corpulento, na faixa dos 60 anos e igualmente vestido de branco, que caminha devagar. Está visivelmente cansado e tem motivos para isso, pois conversou com mais de 2.400 pessoas nos últimos três dias. Ele é cercado pela legião de estrangeiros, ávidos por tirar uma foto ao seu lado. Não há empurra-empurra, mas há competição, e o ritmo é de linha de montagem. Durante 20 minutos, ele posa para os flashes e faz questão de mostrar-se sorridente. Quem consegue sua foto fica satisfeito, pois cruzou continentes para encontrar o homem pessoalmente, ainda que por poucos instantes. 

Esse personagem é João Teixeira de Faria, 66 anos, mais conhecido como João de Deus. Ele é aquilo que os espíritas chamam de "médium de cura", alguém que, supostamente sob a influência de seres espirituais, identifica males, prescreve tratamentos e realiza cirurgias. A cena se desenrolou nos jardins da Casa de Dom Inácio, instituição criada por ele para oferecer tratamentos com claro viés espírita. 

A mediunidade de João é o coração da Casa de Dom Inácio. Ele tem 1,80 m, voz grave e personalidade forte. Fala com sotaque do interior de Goiás, com o jeito simples de quem teve de interromper os estudos na segunda série para trabalhar. Suas palavras são assertivas. "Minha missão é servir de instrumento às entidades de luz. Quem cura é Deus e as entidades, eu nunca curei ninguém", diz. O tom mistura didatismo e paciência. Afinal, a explicação é repetida desde os anos 1950, quando João passou a ser procurado por doentes em busca de alívio e cura. "Não sou um pregador. Estou procurando mostrar às pessoas o que é a verdade, o que é o amor. Mas é difícil alguém chegar a Deus pelo amor. A maioria chega pela dor. Se você ficar cego um dia, vai buscar a Deus", diz.


Logo após a consulta com João de Deus, a romena Simona Constantinescu analisa o encontro: "Senti um afeto muito grande. Nunca tive experiências espíritas, mas estou deixando acontecer".

Mesmo atribuindo ao além o mérito pelos atendimentos que lhe tornaram mundialmente conhecido, João defende o próprio trabalho. Nas paredes de seu escritório estão dependurados cerca de 50 títulos e diplomas. Eles revelam que João foi homenageado pelo Primeiro Batalhão de Fuzileiros Navais do Rio de Janeiro, que é "Amigo do Exército", "Amigo da Marinha", cidadão honorário de Teresópolis... Ali também está um grosso arquivo com depoimentos, registrados em cartório, de pessoas que alegam terem sido curadas. "Eles fazem isso porque querem, eu não teria dinheiro para pagar tantas despesas de cartório. Você não faz um registro se não tiver obtido um benefício, não é?", questiona. 

João menciona o grande número de famosos e poderosos que, em momentos difíceis, foram a Abadiânia em busca de auxílio. Cita alguns nomes que vão de ministros do Supremo Tribunal Federal a personalidades do showbiz.

"Criei a Casa de Dom Inácio para fazer o bem. As pessoas que estão aqui vieram porque quiseram, eu não convido ninguém. Se continuam vindo, é porque percebem que o trabalho é sério. Você pode enganar alguém por um mês ou dois, mas por 50 anos é difícil", diz. 

João tinha nove anos quando começou sua jornada. Caçula de cinco irmãos, residia com a família em Itapaci, no interior de Goiás. Certa vez, em visita com a mãe a um povoado vizinho, pediu a ela que regressassem assim que possível, pois uma tempestade logo cairia. Como nada indicasse chuva, ela não deu crédito, mas concordou em procurar abrigo na casa de um conhecido. Pouco depois, uma forte chuva derrubou ou danificou um quarto das construções do lugar. 

Menino, caiu no mundo em busca de sustento. Aos 14 anos, foi parar em Campo Grande (MS). João conta que, após passar dias sem comer, estava à beira de um rio na periferia da cidade quando viu uma luz e ouviu uma voz lhe dizendo que fosse a um centro espírita da cidade. "Quando cheguei, perguntaram meu nome e disseram que estavam esperando por mim. Me chamaram para sentar à mesa e dirigir os trabalhos. Eu respondi que não entendia nada daquilo e que estava mesmo é com fome." Terminou aquiescendo e sentando-se à mesa, onde estavam os dirigentes da sessão espírita. Um deles entoou uma prece. "Fechei os olhos e percebi que estava caindo no sono." Quando acordou, foi informado de que havia incorporado uma entidade e realizado 50 cirurgias e atendimentos. 

Ficou alguns meses em Campo Grande, mas logo começou a viajar. Durante oito anos, seu trabalho foi movido pelo boca a boca. "Famílias vinham até mim e depois me convidavam para ir às suas cidades", diz. Não se vinculou formalmente a nenhum grupo religioso e seguiu um modelo diferente do espírita tradicional, no qual os tratamentos são feitos apenas nos centros. "Eu acordava de manhã e via aquela multidão parada na minha porta. O que ia fazer? Começava a atender", lembra. Cotegipe (BA), Colinas (TO), Imperatriz (MA) e Wanderlei (BA) são algumas das cidades onde viveu. Ao mesmo tempo, ganhava a vida como pedreiro, garimpeiro e alfaiate.

Heather Cumming foi a Abadiânia em busca de elevação espiritual. Hoje, é dona de uma pousada na cidade.
No rastro do grande público, vinham as autoridades e os médicos. Já então ele dizia a quem o procurava que não interrompesse qualquer tratamento alopático e que seguisse as prescrições médicas. Nem por isso deixou de ser várias vezes detido sob a acusação de exercício ilegal da medicina e charlatanismo. Não chegou a ficar muito tempo preso, mas não gosta de falar do que aconteceu nas delegacias. "Sofri violências na prisão. Mas continuei na minha missão", limita-se a comentar, com os olhos marejados e a voz embargada, antes de mudar de assunto. 
Gradativamente, aproximou-se de algumas autoridades. Após o golpe de 1964, começou a trabalhar como alfaiate para oficiais do exército. "Ali, encontrei pessoas que me deram apoio", diz. Continuou perambulando por várias cidades, acompanhando militares que eram transferidos. Assim João livrou-se das prisões e das perseguições. 

Sua fase de viajante terminou em 1976, quando chegou a Abadiânia. Na época a cidade era governada por Hamilton Pereira, atual diretor administrativo da Casa de Dom Inácio. "Apoiei a vinda de João porque pensava que ela poderia beneficiar economicamente a comunidade", diz Pereira.

À época, Abadiânia era uma cidade com pouco mais de 10 mil moradores.
Seus jovens trabalhavam em Goiânia, Anápolis ou Brasília e só retornavam ao município para dormir. A cidade tinha dois táxis e quase nenhuma infra-estrutura hoteleira. Hoje, com 13 mil habitantes, possui 26 pousadas com 1.500 leitos e uma frota de 37 táxis. São cerca de 500 empregos gerados pela Casa de Dom Inácio. Isso significa que ela tem um peso econômico maior do que a prefeitura. "Fico preocupado com o que pode acontecer quando João não estiver mais aqui", diz Pereira. A estrutura que Abadiânia oferece para receber seus visitantes é desproporcional ao seu tamanho. Nos seis quarteirões da via que liga a BR-060 à casa, encontra-se uma profusão de restaurantes, cafés com internet, lojas de lembranças e agências turísticas. O viajante pode optar entre contratar os serviços de um massagista especializado em reflexologia ou agendar uma excursão para as cachoeiras de Pirenópolis. Os funcionários dos hotéis e do comércio dominam o básico do inglês, língua encontrada nos cardápios dos restaurantes e nos letreiros das lojas.

O professor inglês Errol Roget tentava curar seu joelho pela segunda vez.
Curioso é que, embora João de Deus atraia multidões há décadas, o turismo só desabrochou recentemente. E bem rápido. Heather Cumming, paulista filha de escoceses, começou a freqüentar a região em 1998. Hoje, ela é dona de uma pousada que fica a quatro quarteirões da casa. "Até 2002, da entrada da minha pousada eu enxergava os portões da casa, a área ao redor era um pasto", diz. Agora tudo está tomado. Por trás desse crescimento estão dólares e euros. Heather diz que os primeiros a chegar ao local em grande número foram os australianos, em meados dos anos 1990. "Depois vieram os neo-zelandeses, os europeus e, por último, os norte-americanos", afirma. De fato, sinto-me como em um cofee-break na ONU, tantas são as nacionalidades e etnias representadas ali. 

Hoje é possível encontrar vários sites estrangeiros com endereços como "johnofgodtours", "jeandedieu" ou "casadonignacio". Neles, visitantes convertidos em guias oferecem pacotes de viagens, em geral com 15 dias de duração. Os estrangeiros já respondem por metade das cerca de 800 pessoas em busca de uma consulta com o médium por dia. E o fenômeno é de mão dupla: na última década, João esteve uma vez na Grécia, uma na Nova Zelândia, três na Alemanha e quatro nos EUA. 

O médium vê com naturalidade o interesse estrangeiro. "É gente que lê, que estuda. Estão vindo pela fé. E eu não prego nenhuma religião." E diz que não há nenhuma diferença entre realizar atendimentos aqui ou no exterior. "Para mim é a mesma coisa. Se pagarem os funcionários da casa por uma semana, vou aonde me chamarem", diz João. 

Abadiânia em nada se assemelha aos demais pólos turísticos do País. A pequena cidade goiana respira sobriedade. Quase todos usam branco. Aqui e ali vêem-se cadeirantes e pessoas que caminham com bengalas. Mas também há crianças acompanhadas de seus pais, o que gera uma atmosfera "família".

Nos restaurantes, a música calma, em volume baixo, favorece a intimidade. É comum ver duplas sentadas às mesas conversando concentradamente, como se estivessem relatando a história de suas vidas. A água-de-coco é a bebida mais popular, e é praticamente impossível encontrar bebidas alcoólicas nas proximidades da Casa de Dom Inácio. 

"Nasci a poucos quilômetros daqui. Estou na minha terra, o interior de Goiás", diz João. Mas o fato é que a opção por Abadiânia não foi tão planejada. "Primeiro me instalei em Anápolis porque era amigo do prefeito", recorda o médium. Sua chegada, porém, despertou a pronta oposição da comunidade médica. "Ele então me pediu que me mudasse para Abadiânia." A história quase mudou de rumo em 1993, quando, escaldado por uma briga, o médium quis ir embora de Goiás. Recebeu um bilhete do amigo Chico Xavier, na verdade uma mensagem psicografada, assinada por Bezerra de Menezes, considerado o pai do espiritismo institucionalizado no Brasil. Ela dizia que Abadiânia era "o abençoado local de sua iluminada missão e de sua paz".

"Chico era o papa do espiritismo. Um pedido dele era uma ordem", diz. João realiza uma cirurgia visível. A maioria delas é requisitada por estrangeiros. 

Rodar por Abadiânia a bordo da sua minivan Zafira prata é como estar ao lado de um político popular. As pessoas mantêm uma distância respeitosa. Mas, quando ele as chama para conversar, se aproximam sorridentes, apertam sua mão, abraçam. Ele chama aos mais jovens de "filho" e "filha". Sabe os nomes de muitos e conhece as histórias de alguns. "E o seu irmão, como está?", pergunta a um vendedor de espetinhos. Um rapaz evangélico, mulato e miúdo, na casa dos 20 anos faz questão de mostrar seu apreço. "Vou sempre à casa. Tenho uma foto do seu João dentro da Bíblia", diz. Parte da popularidade de João deriva dos trabalhos assistenciais que ele promove na cidade. A lista é extensa. Ele mantém uma filial da casa, situada em outro bairro, distribui diariamente cerca de mil pratos de sopa à população carente, paga o ensino superior para pelo menos uma dúzia de pessoas. Dois anos atrás, comprou quatro motos para a polícia. Em outubro passado, distribuiu 2 mil brinquedos no Dia das Crianças. E por aí vai. 

Segundo João, o dinheiro para as obras de caridade vem da administração de quatro fazendas. "Trabalho lá três dias por semana e outros três na casa. Às terças, descanso", diz. Todos os tratamentos na casa são gratuitos. As entidades podem prescrever o uso de um medicamento de ervas produzido ali mesmo, que custa R$ 10 o pote. Mas quem alega não ter dinheiro pode levá-lo gratuitamente. 

Com área de 12 mil m2, a Casa de Dom Inácio é um conjunto de pequenas construções, quase todas pintadas de azul celeste. Seu coração é a chamada "área mediúnica", um conjunto de cinco salas onde se desenvolve o atendimento. É lá, entre quarta e sexta, que João de Deus atende todos que o procuram. 

Exatamente às 8h, as 200 cadeiras do saguão estão tomadas por uma multidão vestida de branco. O lugar é decorado com imagens de diversos líderes religiosos e seitas, de Jesus Cristo e Santo Inácio a Joana de Ângelis (ligada ao espiritismo), passando pelo budismo tibetano e sete gurus indianos. Há também um choque de estilos. Vejo um rapaz do leste europeu, usando cabelos compridos, com flores brancas nas mãos, grandes óculos escuros e camisa Empório Armani. Ele espera ser atendido ao lado de uma típica senhora do interior do Brasil. Ela veste saia de algodão e havaianas. 

Abaixo da superfície colorida correm as águas escuras do sofrimento. Basta ver os que caminham com bengalas ou estão restritos a cadeiras de rodas, ou ainda aqueles que ostentam a calvície típica de quem encarou a quimioterapia. E aqueles cujos males não saltam aos olhos? Por trás de cada visitante pode haver uma história muito triste. 

É preciso, então, grande discrição. "A gente não pergunta por qual motivo a pessoa veio aqui", diz Sebastião de Lima, 55, o Tiãozinho, que desde 1972 acompanha João como voluntário. "A pessoa diz às entidades o que busca, a fim de ser tratada. Para nós, ela só conta o que quiser, e se quiser", afirma. 
O americano Craig Kolb medita em frente ao triângulo-símbolo da Casa de Dom Inácio.
Não há um ritual rígido ordenando as atividades da casa. Descalço e vestido de branco, João recita uma prece e, já em transe, senta-se em uma cadeira de espaldar alto para dar início aos atendimentos. "Sou um médium inconsciente, não lembro de nada do que aconteceu durante a incorporação", diz. Ele afirma que não gosta de ver sangue, nem de assistir aos registros em vídeo das cirurgias. 
João não sabe dizer quantas entidades incorpora. Estima-se que sejam de 20 a 30. Os voluntários não sabem sequer os nomes de muitas, já que elas nem sempre se identificam. Mas aprenderam a distinguir as mais freqüentes pelos seus trejeitos. Dom Inácio manca e é bastante amoroso. Dr. Augusto de Almeida tem um jeito mais autoritário. Mas ninguém os confunde com João.

Para um olhar destreinado como o meu, com pouco tempo de observação, fica difícil enxergar personalidades diferentes. 

O momento do encontro com a entidade é um dos pontos altos da viagem a Abadiânia. É a hora de pedir o que se precisa ou averiguar o estado de um tratamento iniciado anteriormente. Muitos na fila estão descalços. Pessoas em cadeira de rodas parecem ter prioridade. Os estrangeiros muitas vezes estão acompanhados pelos seus guias, que traduzem seus pedidos à entidade, e a sua respectiva resposta. Os que estão sós podem contar com os voluntários da casa, que falam inglês e um pouco de francês. Embora a sala esteja lotada, a conversa é íntima e afetiva. A entidade sorri, pergunta como o consulente está, olha direto em seus olhos. Muitos se ajoelham. Há quem se debruce sobre o médium, como se procurasse mais privacidade. Muitos o chamam de "pai". 

A maioria dos pedidos diz respeito a problemas de saúde. Há quem traga fotos de doentes, para serem tratados à distância. Com uma caneta, o médium faz um sinal atrás das imagens. Algumas são colocadas numa caixa, outras são devolvidas. Uma mulher loira, aparentando 45 anos, mostra uma foto e diz que aquela pessoa havia sido curada sem deixar a Finlândia. Com a voz séria, a entidade diz: "Esse é o poder de Deus. Eu sou o Dr. Augusto de Almeida".

Em outros momentos, a ação é mais direta, e a entidade faz as chamadas "cirurgias visíveis". São intervenções com facas, bisturis e tesouras, popularizadas por José Arigó nos anos 1970. Na Casa de Dom Inácio elas não são freqüentes e, em sua maioria, são pedidas pelos próprios consulentes, quase sempre os estrangeiros. Assisti a cinco dessas intervenções em três dias e pude observar que, embora houvesse pequenos sangramentos em alguns casos, ninguém se queixou de dor, mesmo quando a entidade passou uma faca sobre o olho de um homem sem o uso de anestésicos. Não localizei essas pessoas após as intervenções, para que relatassem mais detidamente os eventuais benefícios obtidos.


Muletas e bengalas deixadas por aqueles que se consideram curados por João de Deus.
Quando pergunto o que faz com que alguns sejam curados e outros não, João diz que, "se houvesse um lugar onde todos ficassem curados, seria uma maravilha. Os hospitais fechavam. Não tem mágica, cada um recebe de acordo com o que merece. E quem cura é Deus, não sou eu".

Há ainda quem peça auxílio para trabalhar, para passar no vestibular, para ser aprovado em concursos, para encontrar pessoas desaparecidas, para engravidar. "Pode deixar que eu vou te ajudar com a sua profissão", diz a entidade a uma adolescente sorridente. Um casal de 20 e poucos anos, com aspecto de classe média alta, traz uma criança de colo e agradece a entidade. Ela segura o menino e sorri. Os atendimentos são interrompidos por volta do meio-dia e recomeçam às 14h. Tudo acaba por volta das 17h.

Filho da contracultura, o fotógrafo americano Craig Kolb, 61 anos, é veterano de dez viagens à Índia. A fim de tratar de um problema no coração de sua mulher, Judith, pegou a "ponte aérea" Califórnia-Goiás. "Uma amiga brasileira nos recomendou a Casa de Dom Inácio. Ficamos interessados e descobrimos que nossos vizinhos haviam feito uma visita um ano antes."

Vieram ao Brasil em abril por duas semanas, pagando US$ 3.000 cada um. Voltaram em outubro. "Estávamos com muita vontade de retornar. O quadro da minha esposa é estável. E eu, apesar de não ter nenhum problema, fui indicado a fazer uma cirurgia espiritual. Agora me sinto mais leve", diz. 

O inglês Errol Roget, 55 anos, tem o olhar compenetrado do professor de matemática que é. Veio de Londres em março para tratar de uma dor crônica no joelho, causada por uma lesão na cartilagem. "Fiz uma cirurgia espiritual, mas não segui as indicações do tratamento. Voltei para fazer tudo certo. Meu joelho melhorou 60%, mas há algo mais acontecendo. Minha espiritualidade se fortalece. E isso é mais importante do que o meu joelho", diz. 

A idéia de que o valor da visita vai além da cura física é algo presente na mente de muitos estrangeiros. É o caso da nova-iorquina Eva, uma loira de 50 anos presumíveis que trabalha como agente de viagens e pediu para não ter seu sobrenome citado. Ela conta que esteve na casa pela primeira vez em maio de 2007, movida pelo depoimento de uma amiga que melhorara de um câncer.

"Eu sofria com dores nos ouvidos, menopausa, ansiedade e desequilíbrios nos neurotransmissores", conta. Passou por duas cirurgias espirituais. Quando voltou aos EUA, experimentou uma sensação de transformação. Além do bem-estar físico, diz que ficou mais intuitiva e sensível, e superou problemas pessoais. 

Há ainda outros motivos para os estrangeiros lotarem a casa. Um bom exemplo é a história da jornalista romena Simona Constantinescu, que visitava a casa pela primeira vez em outubro. Ano passado, uma amiga dela veio a Abadiânia para encontrar-se com João. "Ela não tinha problemas de saúde. Veio apenas para entender mais sobre a vida e a morte", diz Simona.

A amiga mostrou uma foto da jornalista a João, para pedir "boas vibrações".
O médium disse que Simona deveria vir ao Brasil. "Me convenci que seria uma experiência enriquecedora e juntei o dinheiro durante um ano." Quando ficou frente a frente com João de Deus, Simona ouviu que é "filha da casa", um termo que sugere uma afinidade com o trabalho que acontece ali. A jornalista caiu em prantos. "Não sei que efeito isso vai ter em mim. Nunca tive experiências espíritas, mas estou deixando as coisas acontecerem", diz. 

A atitude de João quanto ao tema religião é complexa. "Sou católico", responde ele, quando pergunto diretamente. No dia seguinte, define-se como "um espiritualista, que acredita em Deus, na fé, no amor". No mesmo dia, revela que vai "à Assembléia de Deus. Vou aonde eu me sentir bem, para ouvir a palavra de Deus". E argumenta: "Todas as religiões são boas. Maus são alguns dirigentes". Sua atitude ecumênica ficou clara quando me levou até Céu de Abadia, uma igreja do Santo Daime que funciona perto de Abadiânia. "O seu João nos apoiou desde que chegamos aqui", diz Wilson Francisco, padrinho do local. "Nos anos 1970 eu já dizia que o chá não era droga e fui preso e perseguido pelas autoridades por causa disso", lembra João. 

A Casa de Dom Inácio reafirma o poder curativo da fé. Por isso, é natural que muitos dos que a visitam questionem suas próprias crenças. "Fui criada como católica, mas me afastei da religião. Quando voltei para casa, voltei à Igreja", diz Eva. "Muitos se reaproximam da religião que já tinham depois da experiência", concorda Heather. 

Para os estrangeiros, a estadia em Abadiânia é a porta de entrada para o espiritismo, tal como se consolidou no Brasil. "Já li três livros sobre o espiritismo brasileiro, que comprei aqui mesmo na casa. Pretendo aprender português para me aprofundar", diz o americano Kolb. Já a romena Simona preferiu se preparar para a viagem lendo 20 livros sobre espiritismo em espanhol num período de seis meses. 

João diz que o espiritismo é "uma filosofia" e que se aproximou dela "pelo conhecimento". Gosta de citar seu encontro com nomes como Gerônimo Candinho e Chico Xavier. Também narra como os familiares de Eurípedes Barsanulfo deram-lhe uma xícara que pertencera ao prócer do movimento espírita. Em dado momento, é capaz de se definir como kardecista. Mas volta atrás. João faz questão de frisar que, durante sua trajetória, não atendeu em centros espíritas. Aí pode estar um dos principais elementos do seu trabalho. Ao afastar-se de uma religião organizada, pode receber quem talvez se recusasse a entrar num centro espírita. 

O fato é que Abadiânia está se tornando um ponto de peregrinação internacional. Há outros lugares no mundo onde se pode observar fenômenos parecidos. A pequena Puttaparthi, no sul da Índia, recebe anualmente milhares de visitantes, vindos de todas as partes do mundo, em busca de uma bênção do guru Satia Sai Baba. E até hoje a cidade de Puna, também na Índia, continua recebendo caminhões de adeptos dos ensinamentos do guru Osho, que morreu há quase 20 anos. A pequena cidade de Goiás, porém, entrou na rota de pessoas de todo tipo de crença, pois não está formalmente vinculada a nenhuma. E a única semelhança entre João de Deus e um guru é o fato de que ele repete, incansavelmente, um mesmo mantra: "Quem cura é Deus e os bons espíritos. Eu nunca curei ninguém".

Vá Fundo - Para ler
"João de Deus", Heather Cumming e Karen Leffler. 
Editora Pensamento. 2008 
"Curas Espirituais", Ismar Garcia.
AB Editora. 2007.

Artigo.: O HOMEM DE ABADIANIA.
Por.: Pablo Nogueira (texto)
E André Schneider (fotos)
Edição 209 – Dezembro/2008 – Matéria: “A nova era do espiritismo

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Médium João de Deus atrai mais de 6 mil visitantes em Canela

Médium João de Deus atrai mais de 6 mil visitantes em Canela
Reportagem do ABC Domingo de perto o trabalho
deste homem, que levou multidões à casa Dom Inácio.

Eduardo Andrejew/Da redação
Foto: Eduardo Andrejew/Da Redação

Médium João de Deus atrai mais de 6 mil visitantes em Canela

- A tarde de segunda-feira já vai chegando ao fim no pátio da Casa Dom Inácio, localizada no interior de Canela. Os últimos visitantes estão na fila, que foi muito maior no sábado e no domingo. Uma verdadeira multidão passou pelo local por causa da vinda do médium João Teixeira de Farias, o João de Deus. Mas quem os aguarda lá dentro, sustentam os voluntários, é o doutor Augusto de Almeida, que João "incorporou". 

Do lado de fora, entretanto, nem todos parecem fazer esta distinção. Estão atrás de João de Deus e se emocionam com sua presença. Há, nesse amplo grupo, pessoas de diferentes lugares, credos e idades. E todos têm um bom motivo para estar lá. "Vim por causa do meu pai. 

Ele sofre de câncer no pâncreas", explica o caminhoneiro Carlos Daltoe Cardoso, de 34 anos. Acompanhado da esposa, Fernanda, ele havia chegado após cumprir um longo trajeto de Jaguaruna, Santa Catarina, até ali. 

Histórias como a de Carlos são muito comuns. Mas nem todos levam problemas. Muitos agradecem pela melhora ou mesmo a cura. No início da tarde, em uma espécie de auditório ao ar livre, os visitantes ouviram relatos emocionados de pessoas desenganadas por médicos, mas que teriam conseguido superar a doença após serem "operadas" pelo doutor Augusto.

A fila avança lentamente. Mas ninguém se queixa. Todos estão acomodados numa longa área coberta e cheia de bancos. Finalmente, o último bloco é convidado a entrar. O grupo passa pela "sala de limpeza", um espaço que precede o local onde o médium – ou melhor, doutor Augusto – atende aos visitantes. Nas cadeiras, médiuns de branco se concentram para formar uma corrente com outros médiuns que estão no fundo da sala principal. A corrente tem como objetivo auxiliar o atendimento. 

ATENDIMENTO
Na ampla sala principal, "doutor Augusto" está sentado em uma cadeira. Segura a mão de cada visitante e conversa. A uma jovem, diz sem rodeios que o estado de saúde de sua mãe é muito grave. Pede que alguém ligado à família leve uma peça de roupa da paciente até Abadiânia (local no Estado de Goiás onde a primeira Casa Dom Inácio foi fundada por João de Deus). Se isso não for feito, a mãe da jovem irá "desencarnar", alerta. 

Ao repórter se apresenta e indica um local onde ele poderá acompanhar o atendimento, que se estende até depois das 19 horas. A outro visitante, tranquiliza: "Vou te ajudar e logo estará trabalhando". Várias pessoas ouvem seus conselhos. Para uma mulher que afirma ter se curado de câncer, orienta enquanto olha para o jornalista: "depois você dá o seu testemunho a ele". Ao final, doutor Augusto deixa que outro médium ocupe sua cadeira e entra numa pequena sala. Depois de orações e músicas religiosas, quem retorna de lá é João de Deus, recebido com homenagens e abraços de todos os presentes.

Casa Dom Inácio Recebe 6 mil Visitantes
O voluntário hamburguense Carlos Antonio Ghem, de 59 anos, é um dos fundadores da Casa Dom Inácio no Rio Grande do Sul, há 19 anos. Ele comenta que o grande número de visitantes na segunda-feira correspondia a apenas 20% do público no final de semana. E calcula que cerca de 6 mil pessoas foram atendidas durante os três dias em que João de Deus esteve em Canela.

Mas o que essas pessoas procuram e o que a casa oferece? "A Casa Dom Inácio é um hospital espiritual, que recebe toda e qualquer pessoa que vier para cá", responde a voluntária Débora Maria Kehl Trierweiler, farmacêutica residente em Campo Bom. "Aqui não se cura doenças e sim a causa das doenças. De 60% a 70% das doenças são de causa espiritual", afirma o diretor espiritual da casa, Norberto Kist, leopoldense de 67 anos que também ajudou a fundar a casa no Estado e hoje reside em Abadiânia. 

Débora aproveita para salientar que todos os que trabalham no lugar são voluntários e o atendimento não é cobrado. Há, por exemplo, escritório administrativo, sanitários, enfermaria (para os "operados"), uma praça de alimentação (a comida é vendida) e uma área onde é servida gratuitamente uma sopa para quem está debilitado. A medicação feita no local (à base de passiflora) e a água fluidificada – são garrafas de empresas comuns, mas que passam, segundo voluntários, por um processo de "energização" – também são vendidas. O dinheiro das vendas, explica Débora, é usado apenas para manter a casa. 

Voluntários Relatam suas Histórias de Superação
No início da tarde, os visitantes que já receberam o primeiro atendimento pela manhã se acomodam em um espaço coberto com um pequeno auditório. Foi ali que, no sábado, o médium "incorporando" o doutor Augusto Almeida "operou" pacientes na frente das pessoas. Na segunda-feira, as operações foram feitas em um espaço reservado. Do lado de fora, voluntários fazem orações e há relatos de cura. 

Um desses relatos é do ex-locutor de rádio hamburguense Luiz Carlos Nunes, 61 anos, que se recuperou de um câncer há 14 anos. "Era um mieloma galopante", explica. Ele conta que já estava desenganado pelos médicos, quando decidiu ir à Casa Dom Inácio, onde passou por uma cirurgia. "Foi tirado aquilo que me levaria à morte." Nunes diz que levou três meses para ficar livre da doença. Para quem duvida, ele oferece o vídeo com as imagens da cirurgia que o teria salvo da morte.

A guia de turismo e ex-pedagoga Dicléia Regina Carvalho Guterres, 45 anos, de Santa Maria, foi orientada pelo próprio doutor Augusto para dar seu depoimento à imprensa. Há cerca de 16 anos, descobriu que sofria de câncer (melanoma maligno). Além disso, não tinha mais condições de engravidar – tinha duas filhas na época. "Fiz o tratamento por aqui e tomei os chás.

Também passei por três cirurgias", conta. Dicléia diz que levou dois anos para "ter alta". Depois disso teve sua terceira filha. "Dezesseis anos depois da minha segunda filha", acrescenta. Hoje ela organiza pacotes turísticos para a Casa Dom Inácio, no Sul e em Abadiânia.

Artigo.: Médium João de Deus atrai mais de 6 mil visitantes em Canela
Eduardo Andrejew/Da redação
Foto: Eduardo Andrejew/Da Redação

O Monsenhor Horta agradece os irmãos DO SITE JORNAL DE GRAMADO pelo Artigo que engrandeceu este espaço de Aprendizagem e encontros Sagrados.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Os Poderes de João de Deus


Quem é e como atua o médium que faz cirurgias espirituais e atrai pessoas do mundo inteiro para o interior de Goiás em busca de cura dos mais variados males
Por Adriana Nicacio, de Abadiânia, e João Loes - Fotos Adriano Machado

João de Deus atende os visitantes na Casa de Dom Inácio. Na cadeira de
rodas, a menina alemã Lisa-Marie, 12 anos, levada pela mãe para Abadiânia

Abadiânia, cidade goiana distante 78 quilômetros do Distrito Federal, é desprovida de encantos. Não há cinema, teatro, sequer shopping center para entreter seus 13 mil habitantes. Mesmo assim, há mais de 30 hotéis no município e uma concentração de visitantes estrangeiros de causar inveja aos grandes polos turísticos nacionais. O poder de atração dessa localidade de chão batido e ar seco incrustada no cerrado brasileiro é um senhor corpulento, de roupas eternamente brancas e amarfanhadas, 1,80 metro e olhos de um azul profundo conhecido no Brasil por João de Deus. Ou John of God, para seu séquito de seguidores internacionais, que atravessam o oceano em busca de cura para seus males. Há 54 anos, João Teixeira de Faria, 69 anos, analfabeto funcional que nasceu em Cachoeiro da Fumaça (GO), filho de um alfaiate e uma dona de casa, caçula de seis irmãos, é um dos mais famosos e respeitados médiuns em atividade no mundo. Cerca de nove milhões de pessoas, segundo sua própria contabilidade, já se deslocaram até o interior de Goiás para se submeter a suas cirurgias espirituais, uma prática cada vez mais difundida no Brasil. Anônimas e famosas, dos mais variados quilates. O mais recente paciente estrelado é o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em tratamento de um câncer na laringe.

São necessárias algumas poucas horas em Abadiânia para colecionar relatos de pessoas que mudaram suas vidas sob o impacto do encontro com João de Deus. Médicos renomados que largaram consultórios na Europa para se tornarem assistentes espirituais, executivas de alto escalão que viraram donas de pequenos estabelecimentos comerciais na cidade só para ficar perto dele. Além dos incontáveis relatos de cura de doenças – tumores, dores crônicas, paralisias... A saga do líder espiritual goiano já atravessou fronteiras e foi tema de programa da apresentadora americana Oprah Winfrey (“Você acredita em milagres?) e do canal fechado Discovery Channel, entre outros. Sua fama e seu poder ganharam dimensões continentais e são infinitamente maiores do que o local que ele escolheu para exercê-los. Discreto como ele.
EM AÇÃO
João realiza uma operação nas fossas nasais, uma das
intervenções mais comuns, ao lado das cirurgias de olho

O cenário onde João de Deus realiza suas cirurgias espirituais, ministra seus passes e recebe milhares de pessoas semanalmente (cerca de duas mil) é a Casa de Dom Inácio, uma construção azul e branca de mais de 12 mil metros quadrados que fica na rua principal da parte nova da cidade. Lá o médium atende três vezes por semana, às quartas, quintas e sextas-feiras, das 8h às 12h e das 14h às 17h. O interior da construção é adornado com imagens de Jesus Cristo, Nossa Senhora, Santa Rita de Cássia , Santo Inácio de Loyola e do próprio João de Deus, mas também há cristais e outros objetos holísticos. Para entrar na casa, é necessário estar vestido de branco. A entrada se dá pela secretaria, onde o visitante é orientado a preencher uma ficha com seu caso: primeira vez, segunda vez, revisão ou agradecimentos. Em seguida, é encaminhado a um pátio coberto, com cerca de 200 cadeiras de plástico, dispostas em frente a um palco, onde voluntários fazem a primeira prece. Nesse momento, recebe algumas orientações, como, por exemplo: “Os três medicamentos são sono (é importante dormir entre as 22h e 23h); alimento (não se deve comer somente pelo prazer) e pensamento (somos o que pensamos). 

Pontualmente às 8h ocorre a primeira oração, composta de palavras meditativas seguidas do pai-nosso. Em seguida, o médium, também vestido com a cor oficial local, atende aos visitantes sentado numa poltrona. Filas de pessoas passam por ele, sem muito tempo para explicar seu caso. Recebem uma receita do medicamento passiflora – uma planta que teria efeito calmante, manipulada na farmácia da casa – e a indicação de voltar à tarde ou ir para a cirurgia espiritual. Intervenção que pode ser com corte ou sem corte. A escolha é do cliente. “Não é necessário fazê-las com corte. Tem gente que só acredita vendo. Mas são raras. A causa da doença está no espírito, com efeito no corpo”, diz João de Deus. As cirurgias mais comuns na Casa de Dom Inácio são as de olho e fossas nasais, mas o líder religioso faz todo tipo de operação, com e sem faca. Procedimento que causa desconforto entre os espíritas tradicionais, que não estimulam as cirurgias espirituais com corte. “A gente conhece a legislação do País sobre o assunto e não recomenda, mas reconhecemos que, em alguns casos, ela pode funcionar, pois há muitos médiuns que manifestam o dom da cura”, diz César Perri, diretor da Federação Espírita Brasileira.

CURA
Médico e professor da UnB, Ícaro Batista chegou à Abadiânia com
diagnóstico de câncer de próstata avançado. Anos depois, se diz curado.
“Estou novinho em folha”

Para as cirurgias sem corte, o paciente recebe o passe, uma espécie de transmissão de energia. E segue para a meditação. No caso de corte, João de Deus pega uma faca de cozinha, para a raspagem do globo ocular, e uma agulha ou pinça de pressão com algodão cheio de água fluidificada – água abençoada – para introduzi-la pela fossa nasal. As cirurgias costumam durar cerca de dois minutos, mas podem demorar até 15. O paciente não emite um gemido de dor e é encaminhado numa cadeira de rodas para o repouso. O psiquiatra Frederico Camelo Leão, do Núcleo de Estudos de Problemas Espirituais e Religiosos da Universidade de São Paulo (Neper/USP), tem uma explicação para esse fenômeno. Segundo ele, uma cirurgia espiritual pode ser, basicamente, um conjunto de transes. “Não é à toa que a operação só acontece depois de várias visitas do paciente, que vai se tornando cada vez mais receptivo ao que lhe for apresentado”, afirma. Isso esclarece a predisposição à hipnose, por exemplo, que tem força para eliminar a dor dos cortes. Mesmo tendo na ponta da língua a explicação científica, o médico reconhece a dimensão dessas curas espirituais. “Tem muita gente relatando melhora, é um fenômeno digno de ser estudado.” Há 1,5 mil leitos para descanso na construção. As pessoas são instruídas a voltar para a revisão após 40 dias. Se a recuperação foi a contento, recebem alta. Nesse momento, são instruídas a fazer todos os exames necessários para constatar a inexistência da doença. João de Deus é contra abandonar a medicina convencional. “De forma alguma é recomendado suspender a medicação prescrita pelos médicos”, diz. 

Na maioria das vezes, só se submete à cirurgia com corte quem já frequenta a casa há algum tempo. Mas esse não foi o caso do fisioterapeuta holandês Sebastian Wawerek, 30 anos. Ele diz que toda a sua vida sofreu de sinusite, com os sinos bloqueados. “Estava de férias em Buenos Aires e um amigo da Ucrânia me falou dele; por isso eu vim. Pedi a operação visível, porque acredito que só assim ele poderia resolver meu problema. Estou respirando muito melhor”, disse o holandês, deitado em repouso com um algodão no nariz, por onde entrou uma pinça cirúrgica de 15 centímetros. Quatro dias depois, Wawerek ainda sentia os benefícios da respiração desobstruída. “Acho que será permanente”, acredita. O médico austríaco Zsolt Pap de Pestény, 67 anos, diz ter se livrado de um câncer de cólon. “Fiz 11 operações na Áustria, antes de chegar aqui quase morrendo. Em três meses me curei, não pretendo ir embora”, garante Pestény, que se aposentou no país natal e agora é voluntário na casa.

MUDANÇA
A administradora paulista Moema Vilar é dona do restaurante Alquimia e frequenta a Casa Dom Inácio desde 2007, quando levou o namorado para se tratar com João de Deus.

Na Casa de Dom Inácio é comum encontrar médicos que acreditam na cura através de João de Deus. Caso de Ícaro Batista, 62 anos, professor na Universidade de Brasília (UnB), que diz ter se curado de um câncer de próstata em estado avançado por meio do médium goiano. “Posso afirmar que se não fosse o tratamento espiritual não estaria novinho em folha”, afirma Batista, que desde 2005 passa quatro dias em Brasília e três em Abadiânia. Em junho de 2011, a médica dinamarquesa Charlotte Bech Lund decidiu investigar o fenômeno João de Deus. “Vim, porque muitos pacientes meus vieram, melhoraram e voltaram para concluir o tratamento comigo, mas sem remédios”, afirma Charlotte, que voltou ao Brasil para passar as três primeiras semanas de janeiro em Abadiânia. “Cheguei ao topo da carreira prescrevendo receitas e vendo os efeitos colaterais que os medicamentos causam. Aqui, com passiflora, as pessoas se curam. É algo transcendental”, diz a dinamarquesa, que engrossa as estatísticas da Casa Dom Inácio: 80% dos visitantes são estrangeiros.

Apesar de atrair profissionais de saúde, João de Deus não esconde sua mediunidade. Ele tinha 8 anos quando as primeiras manifestações teriam começado. “Demorou muito para eu acreditar nas coisas que via e sentia”, afirma. Só aos 16 anos diz ter aceitado sua missão, ao ter uma visão com Santa Rita de Cássia e seguir para um centro espírita em Campo Grande (MS). Depois, passou algum tempo com o médium Chico Xavier, a quem chama de “papa do espiritismo”. “Íamos em caravanas para o interior de Minas e Goiás”, diz. Foi, segundo ele, Chico Xavier quem lhe pediu para que não deixasse Abadiânia, apesar das perseguições que sofria na cidade, acusado de exercício ilegal da medicina. Em bilhete datado de 18 de setembro de 1993, Chico diz: “Prezado João, caro amigo, Abadiânia é abençoado recinto de sua iluminada missão e de sua paz.” Na época em que João de Deus sofria perseguições, a Constituição combatia o charlatanismo, o curandeirismo e o exercício ilegal da medicina. Atualmente, a nova Constituição, em vigor desde 1988, prioriza a liberdade religiosa, o que tornou a fiscalização das cirurgias espirituais mais complicada. “Hoje a vigilância é feita só quando alguém faz uma denúncia, o que é bem mais raro”, diz o vice-presidente do Conselho Federal de Medicina, Emanuel Cavalcanti.

REPOUSO
Após a cirurgia, os pacientes são encaminhados para o descanso. Há 1,5 mil leitos na Casa de Dom Inácio

João de Deus, alcunha recebida em 1977, realiza cirurgias espirituais e promove passes, mas se diz católico. Foi ordenado padre pela Full Life Fellowship, uma organização religiosa americana que reúne diversas igrejas cristãs. E seus seguidores afirmam que ele é acompanhado por 30 espíritos diferentes. Assunto vetado pelo médium. “Se alguém diz que incorpora essa ou aquela entidade, fuja. Está mentindo”, afirma.


De todo modo, o ecumenismo reina na casa azul e branca da empoeirada Abadiânia. Para lá se dirigem pessoas de todos os credos, ávidas por aliviarem suas aflições ou apenas se aproximarem do líder espiritual. Caso da apresentadora Xuxa, que esteve no local para gravar um programa e acabou atendida por João de Deus. “Ele é um iluminado”, disse, à época. A galeria de famosos é invejável e intercontinental. Quem abriu as portas de Hollywood para João foi a atriz Shirley MacLaine, que declarou ter se curado de um tumor abdominal em 1991 por meio dele. A partir daí a fama do religioso goiano ganhou o mundo. Ele iniciou a construção de duas casas, uma na Alemanha e outra na Itália, e é convidado a operar, pelo menos uma vez por ano, em centros holísticos nos Estados Unidos, na Suíça e na Áustria.


O empresário Marcus Elias, controlador do fundo Laep Investiments e um dos donos da Parmalat, conhece João de Deus há mais de 20 anos, quando levou um familiar com câncer para ser atendido. “Ele se curou e fiquei tão impressionado com aqui­lo que sempre que me deparo com pessoas com diagnóstico terminal levo ao seu João”, diz. Elias coleciona histórias de suas idas à Abadiânia. “Vi paraplégicas que voltaram a andar, cura de câncer... Conheço pessoas notáveis, mas talvez o João de Deus seja a mais notável de todas.” Fundador do Comitê Científico para Investigação de Afirmações Paranormais, o americano James Randi olha com ressalva as pilhas de testemunhos sobre o médium goiano. “O problema é que se recorre demais aos pacientes para entender o fenômeno”, diz. “Claro que eles dirão que estão melhores ou curados.” O ator Marcos Frota chegou a ser assistente do líder espiritual. O encontro se deu em 1996, quando o religioso foi assistir a um espetáculo do circo de Frota, em Goiânia. “Nunca vi exploração. Ele é uma pessoa muito simples, tranquila e sem performance.”
CURIOSIDADE
A médica dinamarquesa Charlotte Bech Lund decidiu investigar o
fenômeno João de Deus atraída pela melhora de seus pacientes


Nos dias em que não atende, João fica em sua fazenda em Anápolis, distante 40 quilômetros de Abadiânia, com a mulher Anna, com quem é casado há nove anos. Tem nove filhos, de mulheres diferentes. Motivo de arrependimento para ele, pois gostaria de ter tido filhos apenas com Anna, com quem não tem nenhum.
“Sou apenas um homem. E, como homem, também erro”, diz. Em sua propriedade há criação de galinha, porco e gado, além de plantação de arroz, feijão e soja. Também possui um garimpo em Nova Era, Minas Gerais, em sociedade com um empresário local. A Casa de Dom Inácio não lhe garante rendimentos. O médium não cobra pelo atendimento nem pelas cirurgias, apenas pelo medicamento passiflora – a caixa com 175 comprimidos custa R$ 50. A farmacêutica da Dom Inácio, Bárbara Saraiva, diz que os comprimidos de passiflora são os mesmos vendidos em qualquer farmácia. “A diferença é a energização que, aqui, os remédios recebem”, afirma.

A Casa de Dom Inácio tem área de descanso com vistas para um mirante, livraria, lanchonete, farmácia e sala de banho de cristal. Além da cirurgia, os visitantes também podem participar do banho de cachoeira, uma bica d’água natural a aproximadamente um quilômetro do prédio principal. A instituição mantém a Casa da Sopa, que distribui cesta básica, roupas e brinquedos. O gerente financeiro da casa, Hamilton Pereira, secretário de Finanças do município e ex-prefeito de Abadiânia, afirma que os gastos mensais da instituição giram em torno de R$ 90 mil. “Às vezes ele tem de tirar do próprio bolso para pagar as contas”, afirma Pereira.
VENDA
O médico não cobra pelo atendimento nem pelas cirurgias.Apenas pelo
medicamento passiflora – a caixa com 175 comprimidos custa R$ 50

Atualmente, a Casa de Dom Inácio emprega mais pessoas que a prefeitura local, que tem 436 funcionários. “Essa parte da cidade só existe porque João de Deus está aqui”, garante o ex-prefeito. O turismo espiritual inchou a região. O comércio está voltado para atender às necessidades dos visitantes, que precisam de roupa e calçados brancos para vestir durante a estadia, de um ambiente harmonioso nas pousadas e de alimentação especial. Dona do restaurante Alquimia, a administradora paulista Moema Vilar, 34 anos, frequenta a casa desde 2007, quando veio com o namorado, vítima de câncer na coluna. Viu o companheiro sobreviver mais dois anos e meio – ele morreu em 2009, aos 33 anos, com 11 pontos de metástase no corpo e pouca dor – e decidiu morar no município em outubro do ano passado. “Abri o restaurante porque preciso viver. Mas não estou aqui para ficar rica. Se fosse esse o objetivo voltaria ao meu antigo emprego na avenida Paulista”, afirma. O comerciante Falciney Claudino de Castro, também com 34 anos, tem uma loja de acessórios de cristais e roupas brancas. “Tem muita gente que compra o armário completo aqui”, diz. “Não sei o que será de Abadiânia quando João de Deus morrer. A economia da cidade vai para o buraco”, afirma o prefeito Itamar Vieira Gomes. 

João de Deus, por sua vez, diz que está pronto para viver pelo menos mais 30 anos. “Eu quero chegar aos 100”, garante. Apesar de realizar curas, ele tem problema de coração. Já colocou três stents e, atualmente, tem tido febre. Nada que altere sua disposição. O médium tem viajado a São Paulo, a fim de atender o ex-presidente Lula. “Mas não vou falar dele. Já viu médico falando de paciente?”, diz. Sobre Lula, apenas garante que o novo amigo será presidente do Brasil novamente e afirma que está orando por seu restabelecimento.
 DEVOÇÃO
A figura de João de Deus está nas paredes da Casa de Dom Inácio,
ao lado da imagem de Jesus Cristo, Nossa Senhora e alguns santos

Para quem crê na força de João, o poder de sua oração tem dimensões concretas. Caso da alemã Beate Obermeier, 45 anos, que chegou ao interior de Goiás pouco antes do Natal com a filha Lisa-Marie, 12 anos, numa cadeira de rodas. Há seis anos, a menina entrou em coma e quando voltou, acordou sem falar, ouvir, comer ou conseguir segurar o próprio pescoço. Em duas semanas de tratamento, passou a comer, a ouvir e até a desenhar. “Só temos a agradecer aos espíritos de luz que encontramos aqui”, diz Beate. Para a mãe que assiste à melhora da filha, não há dúvidas. Mas João de Deus sabe que, para cada Beate, há milhares de incrédulos. Para esses, tem uma resposta pronta: “Não sou eu que curo. Quem cura é Deus. Muitos não acreditam, poucos acreditam, e um número expressivo tem dúvidas. Mas recorro à manifestação de Santo Inácio de Loyola: ‘Para quem acredita, nenhuma palavra é necessária; para quem não acredita, nenhuma palavra é possível.”
DEPENDÊNCIA
Abadiânia, perdida no cerrado goiano, orbita em torno da figura de João de Deus.
“Não sei o que será da cidade quando ele morrer”,
afirma o prefeito Itamar Vieira Gomes

Confira, em vídeo, algumas das cirurgias espirituais “milagrosas” realizadas por João de Deus:















REVISTA ISTOÉ INDEPENDENTE
N° EDIÇÃO.:  2201
TÍTULO.: Os poderes de João de Deus (PÁGINAS 82 Á 90), 
POR.: Adriana Nicacio, de Abadiânia, e João Loes
FOTOS.: Adriano Machado
Colaborou Juliana Dal Piva